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15 de Dezembro de 2018

O voto nulo não anula nada

Publicado por Guilherme Scalzilli
há 2 meses


Os fóruns digitais transbordam em receitas para a vitória de Fernando Haddad, exercícios de futurologia apocalíptica e sessões de ressentimento grupal. Virou hábito exigir recuos programáticos do petista, malhar a estratégia de Lula e culpar seu partido pelo triunfo momentâneo do fascismo. Todos já sabiam, avisaram, estão decepcionados.

Valesse a pena alimentar controvérsias, minha participação seria desacatar esses consensos. Por exemplo, questionando a narrativa de que Ciro Gomes teria mais chance de superar Jair Bolsonaro ou mesmo de impedir que este vencesse de imediato. O pedetista conseguiria 75% da votação estimada para Lula, como fez Haddad? O antipetismo pouparia uma chapa com o PT na vice-presidência? A bancada do PSL ficaria menor?

Também acrescentaria que a vitória do fascismo está longe de representar uma derrota isolada do PT. Foi o fracasso da direita antipetista que gerou o monstro reacionário: a frustração com o impeachment bandido, com a ruína moral da Lava Jato e com a vitimização inevitável de Lula. Os 50 milhões de votos de Bolsonaro equivalem à soma dos candidatos presidenciais do então futuro condomínio golpista no primeiro turno de 2014. Não é coincidência.

Mas prefiro fugir das platitudes hegemônicas, acomodadas em profecias autorrealizáveis e palpites desejosos. Parece mais urgente contrariar certas alas propositivas que se dedicam a afagar o fascismo como estratégia de aglutinação contra ele mesmo. Embora já presente na divulgação de dicas “sinceronas” (escondam Lula, tirem o vermelho, omitam o golpe), o esforço para tolerar bobagens chega ao ápice nos diálogos sobre o voto nulo.

Há tempos venho apontando que o “isentão” é um personagem reacionário que se legitima pela falsa imparcialidade. Tipicamente fascista, o niilismo antipolítico não rechaça todos os partidos, mas apenas aqueles que o negam e, por extensão, alinha-se aos que o adotam. Ecoando os argumentos de Bolsonaro e evitando ameaçar sua liderança parcial, o voto nulo no segundo turno revela uma escolha bem demarcada.

Isso explica os obscenos paralelos usados para rejeitar Haddad e Bolsonaro, como se fossem equivalentes em qualquer tema. Ou a defesa simultânea do voto útil para Márcio França, por exemplo, e do nulo na disputa presidencial. Pois há lógica nessa “loucura”. Quanto mais irracional o ódio ao PT, menor a sua dívida com a sensatez e a responsabilidade histórica. Menor, portanto, a disposição para o diálogo.

Se o antipetismo virou um detergente moral das consciências que vinham apoiando a escalada autoritária, o voto nulo serve a uma pantomima de superação tardia do erro. A apologia da anulação demarca o arrependimento dolorido e agressivo daqueles que sabem ter ajudado a criar condições para que o PT encabeçasse uma frente democrática no país. Hoje se escondem na suposta falta de opções, mas suas escolhas de outrora são incontornáveis.

Concordo que o momento pede moderação, espírito gregário, tolerância. Mas existe um ponto em que o acordo vira adesão unilateral. Pessoas que exigem concessões para repudiar alguém como Bolsonaro não valem o preço de legitimar uma postura indecente por natureza. Quando os anuladores não percebem logo seu favorecimento à barbárie, ou fingem não percebê-lo, é o caso de buscar interlocuções mais construtivas e eficazes.

Independentemente do resultado eleitoral, a luta contra o fascismo dependerá de parâmetros claros e posições firmes. A condescendência afoita da esquerda com seus adversários ameniza as diferenças que definem os papéis de cada um nesse período tenebroso.

http://guilhermescalzilli.blogspot.com/2018/10/o-voto-nulo-nao-anula-nada.html

3 Comentários

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Minhas reflexões são um pouco diferentes das expressas na postagem. Como se diz sem meias palavras, na atual conjuntura “o buraco é mais embaixo”. A rigor, a sociedade não está endeusando um “salvador da pátria”, mas sim prestigiando a candidatura de alguém que serve ao propósito da preservação de seus valores mais caros. Consciente ou inconscientemente, a população, há algum tempo, vem repelindo estratégias desagregadoras do tecido social preconizadas pelo filósofo italiano Antônio Gramsci. Tais estratégias foram desnudadas pela Operação Lava Jato e pela visibilidade da triste condição de nossos vizinhos e irmãos venezuelanos.

Ora, Bolsonaro, apesar de suas muitas declarações troglodíticas do passado, surge como candidato à presidência da República mais talhado no momento para enfrentar a ameaça da esquerda bolivariana. Falando sério, pouca gente acredita que ele mereça ser taxado de fascista ou de nazista, tanto mais quando sua campanha conta com o apoio de organizações judias.

Em suma, a onda conservadora que se iniciou em 2013, tomou vulto em 2016 e se tornou um tsunami em 2018, varrendo do Congresso Nacional figurinhas carimbadas pela corrupção. As que se salvaram do naufrágio, seguramente, vão ter que se conter diante da nova realidade saída das urnas e do ânimo renovador dos neófitos na política. Moral da história: a esta altura do campeonato, de nada adianta o candidato do PT vestir a pele de cordeiro quando se faz escoltado pela alcateia. Ninguém é mais trouxa de cair nessa! continuar lendo

Queridos, passamos décadas ouvindo o com o discurso da esquerda. Precisamos abrir as janelas. segue o link para uma delas. Leiam, por favor.

http://www.ilisp.org/artigos/fascismo-uma-ideologia-de-esquerda-originada-do-marxismo/ continuar lendo

Sugiro uma mudança de título:

"Todo mundo que eu não gosto é Hitler" continuar lendo